quinta-feira, 7 de julho de 2011

Feitos de Água

Gosto de pensar que as pessoas são água. Aliás, em termos biológicos, isso é bem verdade: mais de 70% do corpo humano é composto pelas infames moléculas feitas por dois átomos de hidrogênio e um de oxigênio. Com efeito, agimos como água, em todos os aspectos.

Como um rio, nós tendemos a ir sempre pelo caminho mais fácil, nos esquivando dos obstáculos à medida que os encontramos. Somente os enfrentamos se pressionados e sem alternativa.

Como um lago, tendemos a ficar onde estamos, plácidos, imóveis. Sem nos mover diante das dificuldades ou enfrentamentos.

Mas, como o oceano, há uma profundidade inerente a cada um de nós. Somos dotados de um interior vasto e complexo, que pode externar-se das mais diversas maneiras: podemos ser gentis como as ondas na praia, ou destrutivos como as ressacas. E o mais importante - para parafrasear Fernando Pessoa - podemos refletir o céu azul e sem limites.

Amanhã eu começo.

Matamos o tempo; o tempo nos enterra.
Machado de Assis

Nada mais humano que a procrastinação. Arrastando-se dia após dia, nas longas horas que se protraem infinitamente, a disposição sempre alega a si mesma a folga de mais algum tempo e a conseqüente desnecessidade de imediatamente se agir. Assim, evoaçam-se as semanas, os anos, a vida, e continuamos os mesmos.
Ao contrário daquela ética protestante que impele os indivíduos a uma rígida disciplina moral, com o fito de se conquistar os méritos pelo esforço e trabalho, muito mais se assemelha a natureza... Pensando bem, acho que amanhã eu continuo o que eu tiver que escrever...


domingo, 17 de abril de 2011

Sermão da Montanha à Brasileira

Estava o Brasil a andar por este mundo afora, quando, rodeado de pessoas, decidiu manifestar mais uma vez sua doutrina:

"Felizes os torcedores fanáticos, porque se alegram com vitórias efêmeras;

Felizes os políticos, porque roubam e ainda ganham eleição;

Felizes os ex-BBBs, porque fazem nada e ganham tudo;

Felizes os hipócritas, porque são idolatrados;

Felizes os banqueiros, porque faturam sem razão.........."

- Tudo isso meus irmãos, é Palavra de Danação.

terça-feira, 29 de março de 2011

Como qualquer proposta à cultura neste país, acentuada pelo nome que - não sei se feliz ou infelizmente - lhe demos, a Constituinte foi engavetada nos arquivos do sufocante cotidiano.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Vejamos o que há de vir.

O que muda dum ano proutro?
Menos por uma questão orbital de que o planeta completou seu eterno rodipiar ao entorno do sol até que a gravidade os separe, mais por que eu preciso de férias e aquela merda de ano foi uma bosta, ao fim dos trinta e um dias competentemente cumpridos por dezembro, comemora-se o ano novo. Euforicamente, movidos por uma inexorável e inexplicável lei, todos migram rumo à costa, vestem branco, tomam champahne, ofertam barquinhos à Yemanjá, pulam sete ondinhas, colocam sementes de romã na carteira, estabelecem metas...
Tudo porque o melhor ano sempre será o próximo.
Dum ano proutro não muda nada, continuar-se-á gorda, continuar-se-á pobre, continuar-se-á solteiro, continuar-se-á naquele emprego medíocre! Quantas meia-noites já não se virou dormindo? Por que somente nesta há as energias positivas necessárias para o ano que começa e o tempo certo para a prática de simpatias?
Nada contra as forças ocultas e místicas; apenas são ocultas e místicas, não milagreiras. Nada alteram se nada for alterado.
Quer na praia, quer em frente à televisão assistindo ao show da virada, recebamos o novo calendário despido daquela falsa lista de metas-esperanças que adoram apanhar os bons tapas da frustração, mas com o coração límpido e disposto a recomeçar o trabalho independentemente das adversidades vindouras e bem-preparado para lutar por seus anseios.


RECEITA DE ANO NOVO - Drummond

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)

Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

A Luta mais Vã

É irônico como toda a eloquência e toda retórica do mundo parecem tão úteis quanto uma faca em um tiroteio quando realmente precisamos das palavras. Elas nos escapam, nos deixam sozinhos quando deveriam nos acompanhar. O poder sobre a palavra é como o reflexo da lua em um lago de águas calmas, pensamos tê-lo, mas quando nos atiramos em sua direção, nos afogamos e percebemos o quão fúteis são nossos esforços.

Com efeito, a teoria só nos serve nas situações premeditadas, nunca nas ocasiões de apuros ou desespero. A verdade é que não temos palavras profundas o suficiente para acalentarmos um coração ferido pela perda de um ente querido, por exemplo. Também não temos palavras ternas o suficiente para expressar aquele primeiro e idílico amor.

Já dizia Drummond: "Lutar com as palavras é a luta mais vã". Lutamos com elas a vida inteira, e percebemos somente no decorrer de nossas caminhadas que é uma batalha perdida. Uma utopia, anseio de poetas alucinados.

Por fim, devo fazer eco novamente a Drummond:
"Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível que lhe deres:
Trouxeste a chave? "

terça-feira, 9 de novembro de 2010

'' Não temas, crê somente...''

'' Não temas, crê somente'' - disse o bom Jesus certo dia, em certo lugar; e cravado na Bíblia ficou. Autoflagelava-me ao andar em dia de Sol escaldante, trajado com o blusão de lã azul e uma calça também azul. Para muitos, o tal Jesus fora um cara qualquer que foi pregado em uma cruz; não serviu de nada - talvez eu fosse um deles. Caminhava veemente para meu objetivo final: minha casa. E foi aí que, ao ler uma placa pregada em um outro e suposto Jesus, encontrei uma fatalidade. Não pretendo retratá-la com adornamentos, nem tecendo linhas de pensamento complexas. Quanto mais desadornado, melhor.
Tal fatalidade me infernizou até certo momento em que decidi escrever para descrever. Um terço de mim já se encontrava fatigado pelo santo passeio, mas decidi tentar mesmo assim. O que alguém gostaria de promulgar com: ''Não temas, crê somente'' ? Para muitos talvez a resposta esteja aí, simples e fácil. Mas não consigo acreditar que seja apenas em acreditar veemente em algo imaterial para não temer; algo metafísico. Se querem realmente minha opinião, estive um pouco mais preocupado com um certo presente por aí, mas desisti da ideia. Tive medo, não consegui crer naquilo. Simplório demais? Nunca li a Bíblia, então nada sei dizer. Que tal um pouco de opinião alheia? Supostas verdades universais não existem, certo?
Perdoem-me se errei pela simplicidade e honestidade, mas é que, além do certo vazio demográfico aqui existente - o que não altera nada mesmo -, senti-me na urgente necessidade de escrever algo - por mais que seja ruim a qualidade textual aqui presente.

Vinícius